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06/08/2011

Passaporte social



Hoje vou falar de um assunto que acontece constantemente e que tem mexido comigo. Tenho percebido certa exclusão de minha pessoa, dentro dos meios sociais que frequento. Na faculdade as garotas bonitas só querem amizade entre si. No trabalho os colegas se relacionam conforme grau de popularidade. Mas o que é isso? Nem parece um ambiente profissional, todo mundo disputando beleza. No Facebook é a mesma coisa, no Orkut também, Twitter até cancelei meu perfil. Em fim, não consigo ter o relacionamento que desejo porque minhas opções são restritas, tolhidas por um comportamento social que segue um padrão fútil onde só a beleza importa.

Qual é gente, vocês sabem do que estou falando! Realmente acreditam que aquela garota super estilosa, com um penteado legal, roupa de grife e uma tattoagem no pescoço vai querer ser minha amiga? Teorias dizem que as pessoas tendem a se agruparem de acordo com hábitos semelhantes e gostos. Eu concordo e acredito nesta teoria, mas na prática o que sobra sou eu, um cara a fim de me relacionar com uma porção de gente que não quer se relacionar comigo. E não é por falta de tentativa, tenho sido um sujeito bacana, sociável, mas não tem jeito, se não for a favor da correnteza e se render às leis da beleza, fica excluído. E ai me sobra a amizade dos NERDs, não que eu não goste, são ótimas pessoas. Mas o que me incomoda e não ter a opção de uma loira linda na minha lista de amigos.

Um dia marquei um churrasco aqui em casa, tudo por minha conta, só queria mesmo era fortalecer o social. Mas me pergunta se alguém veio? E não falo só de mulheres, tentei ter relações de amizade masculina, mas muitas das vezes não funcionava, porque quando íamos sair juntos, ou eu estragava o grupo, ou segurava vela. E quando digo estragar, digo porque sou feio. Muitas vezes saí em dupla com um amigo onde ele queria abordar outras garotas, mas perdia a chance, e porque? Porque é assim que acontece: quando dois caras chegam em duas garotas, cada uma vai se interessar por um, correto? Pois é, mas se um deles for feio, nenhum dos dois vai conseguir ganhar garota alguma, porque a garota que se interessou pelo bonito, mesmo interessada não vai deixar sua amiga sozinha batendo papo com um cara feio.

Sei que esta questão é mais masculina, a maioria das garotas talvez tenha experimentado algo parecido, mas não desta maneira. Mas é assim que acontece. É minha gente, a rejeição é poderosa! E por isso acabo deixando de fazer muitas coisas pelo simples medo de ser rejeitado, até por pessoas que não têm nenhuma ligação emocional comigo. Já não vou mais a boates, shoppings ou praias. Esse sentimento de rejeição muitas vezes nos faz pensar que há algo de errado conosco, já que “ninguém nos quer” e é daí que vem tanta dor. Não há nada de errado comigo e sim com a sociedade.

A maioria das pessoas tem em si um sentimento de rejeição reprimido que mal percebem e age buscando aceitação todo o tempo. Mas jurariam que não o fazem. Se você não busca aceitação, então porque se incomodou tanto quando aquela colega disse que você está com uma gordurinha a mais? Ou porque seu namorado não elogiou seu novo corte de cabelo? Eu também faço isso, tento ser aceito em meios sociais, bebo um chopp (que odeio) só pra estar com a galera. Mas nunca parece ser o bastante, é sempre necessário mais e mais... o celular caro da moda, um cabelo legal, um carro, roupas de grife e tudo quanto é tipo de exigência que as leis da beleza impõem. É o passaporte de entrada para uma vida social agitada. Com isso, ou dedico toda minha energia para me manter “em forma” ou me deixo se arrastado para o lado dos rejeitado. E nesse mundo de rejeições, o sujeito acaba ficando maluco e entra em uma escola com uma arma e mata um monte de gente inocente. Daí o pobre coitado, mais inocente ainda é taxado de “monstro”. Ele só queria ser aceito, e quem não quer?

Por: Um Lugar Escuro (Fotografia: Rodrigo Denúbila).

05/08/2011

Ó beleza! Onde está tua verdade? (Shakespeare)



Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, disse o Senhor a Samuel (16:7). Não, não estou pregando a palavra de Deus, mas não posso deixar de me lembrar de frases como estas vivendo numa sociedade como a que vivo. O Brasil é o país dos corpos perfeitos, quando não dourados das praias nordestinas, alvacento das terras do Sul. Enquanto em países como Europa, por exemplo, as pessoas parecem se focarem mais na própria roupa ao se vestir, no Brasil o foco está no corpo quando escolhemos nossas roupas antes de sair. Aqui a beleza é supervalorizada e não se trata de uma questão de opinião particular. A revista Time exibiu esse fato numa capa que expos a Carla Peres com o título: “The plastic surgery craze: latin americanan women are sculping their bodies as never before”

Toda essa idolatria a beleza me incomoda, e não serei hipócrita de dizer que é unicamente por uma questão moral, porque a beleza é passageira e deveríamos nos firmar sobre qualidades infindas. Não, o culto ao belo me incomoda porque eu não estou no topo, porque eu não faço parte desse grupo de pessoas lindas e maravilhosas, os(as) tais gostosões(onas). É claro, se eu fosse lindo, seria muito conveniente para mim, dizer que a beleza é fundamental. Como dizem, inclusive, os lindos (ou ao menos os que se acham). Outro dia li no facebook um debate sobre a importância da beleza e o que reparei foi que, as pessoas mais feinhas diziam que a beleza interior é o que conta, enquanto as mais coquetes não conseguiam deixar de julgar essencial a beleza.

Se essa beleza é realmente tão indispensável, então como ficam os gordinhos, os magérrimos, anões, afro-brasileiros, os deficientes físicos? Porque nós não podemos nos achar bonitos também? Quando faço esta pergunta, não espero ouvir respostas como: devemos nos valorizar, ter amor-próprio, estar satisfeitos nós mesmos. Isso não cola. A verdade é que a beleza é quem manda e se você está fora dela, está em desvantagem. Isso é o que me incomoda, é por isso que estou farto dessa reverencia social ao que é belo. Entendo que seja natural do ser humano ter atração pelo o que é bonito, é obvio. Mas isso não justifica o fato de colocarmos essa beleza à frente de tudo. E pomos a frente de tudo mesmo, até da moral. Quantos casos não se sabem de pessoas que subiram na vida, exclusivamente por terem uma boa aparência? Eu sou inteligente, educado, honesto, talentoso, civilizado e eventualmente até caridoso. Mas isto basta? Não, porque eu não sou bonito.

Não sou eu quem digo, são dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plásticas: os brasileiros se tornaram o 2º povo que mais faz plástica no mundo, perdendo apenas para os norte-americanos. Isso porque cirurgia plástica é cara e o nosso país não é o que podemos chamar de país rico. Imagina se fossemos ricos? Ou pior, se a cirurgia fosse gratuita? Quase 60% das mulheres disseram que fariam cirurgia se fosse gratuita. Por ano são realizados em média 600.000 cirurgias plásticas no Brasil. Há cerca de dois anos, uma pesquisa feita com mais de 3 mil mulheres brasileiras pela empresa Unilever apontava que 63% delas desejam fazer cirurgia plástica (o maior índice mundial da pesquisa). Para confirmar dados: www2.cirurgiaplastica.org.br

Em fim, acho que não preciso dizer tanto, você pode ver se olhar para o lado. Aquela loirinha que passou no seu lugar na entrevista de emprego. O galã de novela sem o mínimo talento roubando o lugar de feios talentosos. As áreas VIPs das boates só ocupadas por beldades. Em fim, vamos ser honestos, os dados e estatísticas mostram apenas de forma quantitativa aquilo que vivenciamos todos os dias. Hoje resolvi postar algo meu, não que o restante não seja. Todos os textos que ponho aqui, são alguns, de outros autores, mas em parte seus pensamentos são também meus. Pois compartilho da mesma ideia.

Mas o que quero dizer é que hoje postarei algo realmente meu, escrito por mim. E o que me fez escrever foi a indignação que sinto em estar vivo. Claro, o simples fato de existir somente não constitui pecado algum, o mal está em existir como sou. Se fosse mais charmoso, mais estilo galã, se tivesse uma condição financeira melhor, se fosse mais extrovertido, soubesse fazer as pessoas rirem, se não tivesse manias tão esquisitas... em fim... se eu não fosse eu, talvez a vida se apresentasse melhor. Espero ler comentários neste post, espero que exponham seus pontos de vista, seus questionamentos, que compartilhem comigo. Para continuar com este blog, preciso da participação de todos.

Ainda não vi ninguém que ame a virtude tanto quanto ama a beleza do corpo. (Confúcio). Vamos lá, digam-me, de que lado você está?

Por: Um Lugar Escuro.

CONTATO: umlugarescuro@gmail.com